“Independente desta medalha que ficou para trás, Mel representa uma história que traduz da forma mais fiel a definição de “campeã”

Ponto Final - NOVO

Já não surpreende mais a ninguém a capacidade ilimitada dos políticos brasileiros em prejudicar o povo em detrimento de seus próprios interesses. Mas, de uns tempos pra cá, até no que mais o brasileiro tem de melhor e mais reconhecido lá fora, que é o talento esportivo, as práticas sujas e, digamos, insensíveis, de dirigentes/políticos já deixam marcas irreversíveis e causam prejuízos devastadores.

A mais recente “brasileiragem” alijou Mel Cueto, da equipe santa-mariense Drill BJJ, uma das mais talentosas atletas do jiu-jitsu gaúcho e brasileiro, da disputa do Abu Dhabi World Professional Jiu-Jitsu Championship, a principal competição do mundo na arte suave, realizada anualmente nos Emirados Árabes Unidos, que iniciaria para ela nesta terça (18/04).

Com a vaga conquistada em fevereiro de forma legítima, ao vencer a Brazil National Pro Jiu-Jitsu Championship 2017, competição com status de seletiva para o Mundial da UAE Jiu-Jitsu Federation (UAEJJF), realizada em Manaus (AM), a faixa-roxa de 26 anos que, entre tantos títulos em meia década participando de competições mundo afora, só em 2016, sagrou-se campeã mundial pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo (CBJJE) e do  Sul-Americano pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ), não poupou sacrifícios para realizar o grande sonho de sua vida e de 10 em cada 10 lutadores do mundo, de participar do grande torneio no Oriente Médio, que oferece premiação em dólar e é um dos únicos eventos que tem o poder de redimensionar a carreira de quem consegue atingir o pódio.

Mas, todo o esforço e preparação de quem precisar lutar dentro e fora dos tatames para manter vivo seus sonhos, que incluem uma rotina de muitas horas de treino diário e até realização de rifas para garantir tanta despesa para competir, desta vez acabou derrotada pela incompetência, negligência e total desrespeito de dois órgãos que protagonizaram um episódio inacreditável se não fosse no Brasil, envolvendo o Ministério do Esporte e Secretaria Estadual de Juventude, Esporte e Lazer do Amazonas (SELEJ-AM), que selaram um acordo orçado em, mais do que suficientes R$ 1,5 milhões para garantir a ida de 66 atletas e uma delegação inchada de quase 100 integrantes na chamada “seleção brasileira” aos Emirados.

Conforme noticiou o blog Olhar Olímpico do portal UOL, assinado por Demétrio Vecchioli, o rolo começou assim: o projeto do convênio assumido de forma voluntária pelo governo federal levou um mês para ser enviado pela SEJEL-AM ao Ministério em Brasília, de onde saiu a oficialização na edição de 11 de abril do Diário Oficial da União, menos de uma semana do embarque dos atletas. Sem a liberação dos recursos até esta segunda (17/04), um dia antes do início das lutas, Mel e cerca de outros 30 atletas ficaram impedidos de embarcar. Sem vistos, passagens e tudo que a eles foram prometidos, terão agora que conviver com mais uma decepção que deixará marcas eternas em suas memórias.

Enquanto o Ministério se manifesta empurrando a responsabilidade para o estado do Amazonas e vice-versa, sonhos vão ficando para trás com a mesma naturalidade que os cofres públicos são saqueados em superfaturamentos com orçamentos de cartas marcadas. E nesse esporte, os engravatados que habitam gabinetes, infelizmente, se mostram cada vez mais faixas-pretas e mestres em finalizar esse tipo de disputa.

Pelotense de nascimento, Melissa Cueto é uma estrela produzida em Santa Maria, que precisará de muito apoio para superar esse desapontamento. E é o nosso respeito e carinho que transmito a ela através deste espaço.

Meu desejo é de que Mel transforme tamanha frustração em mais força para seguir construindo uma carreira de exemplo, de superação, garra, perseverança e talento. Dona de uma trajetória que sempre me emocionou a cada capítulo que narrei aos leitores do EsporteSUL ao longo destes cinco anos de vitórias, derrotas e conquistas, independente desta medalha que ficou para trás, Mel representa uma história que traduz da forma mais fiel a definição de “campeã”.  Um abraço, Mel. Estamos juntos contigo!

Diogo Viedo é gaúcho de São Gabriel e vive em Santa Maria desde os 17 anos. Jornalista desde 2010 e editor do EsporteSUL, é lateral-esquerdo em todas as peladas que joga e nunca assa o churrasco nas reuniões com os amigos.

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