“Em todas as entrevistas eu dizia: as pessoas precisam chegar, precisamos nos unir, mas não adiantou. Eles foram reféns de uma situação que o clube vem trazendo”

Conhecido no universo do futebol amador santa-mariense, o treinador que aceitou o desafio de tentar livrar o Riograndense de um vexame na Terceirona 2017, Leonardo Ribeiro, que conseguiu dentro de campo levar o grupo formado por jovens jogadores a uma improvável classificação abriu o jogo sobre tudo que aconteceu durantes os primeiros meses da temporada no estádio dos Eucaliptos, que culminou com seu pedido de demissão e o consequente abandono do clube ferroviário da competição, fato que obrigou a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) a aplicar uma punição de dois anos ao Periquito do bairro Perpétuo Socorro.

Sem esconder sua frustração, Ribeiro, que tem no currículo trabalhos em categorias de base em clubes como Dolce (Santa Maria), Cruzeiro (Santiago), na década de 1990, além de Grêmio (Porto Alegre), no início dos anos 2000, explicou os motivos que o levaram a entregar carta de demissão e o desmanche do elenco que conseguiu uma arrancada impressionante na reta final da primeira fase da Segunda divisão gaúcha, conhecida como Terceirona.

EsporteSUL: Era muito difícil reverter a situação, ainda mais com um time de garotos e sem muita estrutura. Que análise pode ser feita do trabalho e como surgiu a oportunidade de treinar o time?

Leonardo: O Coden (presidente) e o Nei Carvalho me chamaram  para ser o treinador. Mas, quando cheguei lá e já havia o trabalho do Mikael, eu aceitei participar em prol do clube, como preparador físico. Aí veio a oportunidade de assumir o time. Muitos diziam que éramos “loucos” de aceitar. Foram uma enxurrada de mensagens que de sátira, deboche, que diziam que agora que o Riograndense iria cair, até porque eles já tinham um treinador. Aí o grupo procurou o Nei Carvalho e pediu para que eu fosse eu, o Leonardo. Não tinha contrato, foi só na palavra. Assumimos essa bronca e conseguimos. Pra mim foi bom, mas para os jogadores não foi. Saber que depois da batalha, depois da guerra, depois do pior, deixar escapar, pelo menos uma segunda fase, isso é o pior de tudo. Eles sabiam que precisavam de um pouquinho mais de apoio. Três ou quatro não iriam dar conta do recado. Aí quando chegou a hora da motivação, veio a notícia que as coisas não iriam estar como a gente gostaria aí eu pedi afastamento. Ao passar do tempo, mostrando resultado, era obrigado a ter alguma coisa.

Leonardo Ribeiro assumiu o time em meio à Segundona e comandou uma reviravolta que levou o time à classificação para a segunda fase. Foto: Bruno Tech/EsporteSUL

EsporteSUL: Surpreendeu o modo que os jogadores começaram a se comportar no campo e comemoravam após a tua chegada. Vocês pareciam estar fechados. Mas, a direção estava fechada, havia contato ou diálogo com os diretores. Havia planejamento por parte dos diretores, que, inclusive, contrataram jogadores na reta final da primeira fase?

Leonardo: Quando eu assumi eu disse aos jogadores que haviam regras, mas o que acontecia? Tinha lá o Wolmar (Heringer), que gastou toda a poupança dele lá dentro, o seu Nei Carvalho, que corria, o Gleno de Jesus, o Idarlei Pereira, o Fernandinho, que ajudavam por fora. Mas, quem entrou no vestiário foram três pessoas: O Cláudio Zappe, o Bruno (Tech), e a Angélica (Varaschini), (repórteres do EsporteSUL e Rádio Imembuí). Em todas as entrevistas eu dizia: as pessoas precisam chegar, precisamos nos unir, mas não adiantou. Eles foram reféns de uma situação que o clube vem trazendo.

EsporteSUL: Hoje te arrependes de não ter procurado alguém para conversar antes da classificação para saber o planejamento do clube?

Leonardo: Eles falavam que eu sabia quando assumi, mas eu sabia que a gente tinha condições. A gente, às vezes, controlava situações de bastidores, de problemas de família dos jogadores, conseguir dinheiro para remédios, sem passar pela diretoria, resolvemos entre nós. Eles nem sabiam o que estava acontecendo e por isso me arrependo. De não ter aberto pra fora, de gritar para todo mundo. Na verdade a gente ficou abandonado, fora esses caras que estavam aqui, eles não acreditavam que nós íamos chegar. Só não nos falaram para perder jogos, entregar, porque sabiam que não iríamos aceitar, todo mundo queria chegar. Basta ver a nossa campanha. Mas, ficou pela metade. Arrebentaram com os sonhos de umas crianças, sem ganhar nada.

Treinador anunciou seu desligamento no dia primeiro de junho. Foto: Bruno Tech/EsporteSUL

EsporteSUL: Como foi a última conversa com os jogadores?

Leonardo: Eu pedi desculpa a eles. Na verdade eles me pediram para ficar e eu disse que tinha que brigar por eles. A minha briga foi porque eu queria estrutura, comida, queria um abrigo, uma camiseta. Nós, do veterano (amador), temos dois ternos de camisetas, um abrigo e uma jaqueta. O Riograndense só tinha um fardamento, nem colete, nem bola tinha. Foi por isso que eu briguei. Isso era o mínimo para os guris. A gente pediu em uma viagem longa, dormir na cidade. Diziam que era loucura, que eu estava querendo demais.

EsporteSUL: Disso tudo ficou alguma mágoa com alguém do clube?

Leonardo: Ali é minha casa. Eu escutei muito. Fiquei magoado. Me disseram que eu deveria ter apagado a luz, que eu não fui homem. Mas, a luz já estava meio fraca e eu não tive tempo para apagar. Mas escutei que não fui homem, mas eu não tinha como ficar, eu não podia ver aquela gurizada do jeito que estava. Eu não estava mais conseguindo tirar dos caras o que tinha que tirar. Eles só não jogaram porque os jogadores também tiveram a mesma atitude que eu. Eles queriam estrutura.

EsporteSUL: Passado todo esse período, já houve alguma reaproximação com o Riograndense?

Leonardo: Conversei com o Wolmar, com o Nei. Fui pedir desculpas para o Zappe, pois foi o único cara que entrou no vestiário e me apoiou. Fui explicar a situação. O resto, pra mim, infelizmente, fiquei muito chateado. Veio um time me procurar e eles disseram que não tinham o meu telefone. É muito complicado, queimaram um cara da casa.

EsporteSUL: Mesmo sabendo que no futebol do interior muitos clubes vivem situação semelhante à do Riograndense, tens como planos seguir como treinador de futebol?

Leonardo: Já estamos trabalhando para isso. Estou me especializando, tenho o curso de treinador e estou fazendo uma pós-graduação técnico-tática, já estamos nesse caminho. A gente sabe que é muito fechado, muito complicado, mas vai surgir, como surgiu. Continuamos estudando, fazendo nossa parte. 

Leonardo Ribeiro deixou o Riograndense com um aproveitamento de 66,6%. Foto: Bruno Tech/EsporteSUL

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