Se nada é feito para durar, o Inter-SM é

Muitas são as discussões e contradições no campo sociológico acerca da pós-modernidade. Mas para autores como o polonês Zygmunt Bauman, vivemos em “tempos líquidos” onde “nada é feito para durar.”. Para ele, e muitos outros filósofos da pós-modernidade, a nossa sociedade vive um tempo em que o efêmero tomou conta das relações e das práticas humanas e que o ser humano, a partir das facilidades que a tecnologia e a informação nos proporcionam, se acomodou a ponto de perder a paciência com realizações que exijam tempo e trabalho a longo prazo.

Fazer a bola rolar no interior do Rio Grande do Sul não é fácil. São muitas as brigas que um clube e seus abnegados servidores compram ao escolher trabalhar para manter um time profissional jogando. Existe a briga contra o poderio dos milionários clubes da capital que competem pela atenção sobre os torcedores, a briga contra a falta de dinheiro, de estrutura, de incentivo. Há também a briga contra as decisões políticas da Federação Gaúcha de Futebol, que nem sempre beneficiam os clubes menores, contra a elitização do futebol em vários aspectos. Inclusive no aspecto midiático. As grandes empresas de comunicação preferem dar visibilidade ao Barcelona do que valorizar os nossos times e os nossos campeonatos. (A última transmissão televisiva da Divisão de Acesso foi em 2014 pela extinta TVCOM.). Toda essa briga é apenas para se manter em outra briga: a peleia pelos pontos com os outros clubes pelos campeonatos.

No Esporte Clube Internacional de Santa Maria não é diferente. Mesmo em um clube que completará 90 anos daqui a alguns dias e que tem tradição no futebol gaúcho, que já disputou de igual pra igual com os maiores clubes do estado e que já participou do competições nacionais, a luta para se manter de portas abertas é constante.

Depois do rebaixamento para a Divisão de Acesso em 2011, o clube vinha passando por várias dificuldades. Em 2016, ano em que o arqui-rival Riograndense caiu para a terceira divisão do futebol gaúcho, o Inter-SM também correu riscos de rebaixamento até o fim da competição. Essas dificuldades foram fruto da falta de planejamento e de um projeto a longo prazo. O imediatismo de disputar a Primeira Divisão e qualquer jeito e o acúmulo de dívidas sem pensar no amanhã fizeram o Internacional andar experimentando seus piores dias, inclusive com risco de acabar fechando. O projeto do Inter-SM não era feito para durar.

Porém, em 2017 algo começou a mudar dentro do Internacional. As velhas práticas imediatistas começaram a ser abandonadas e um projeto sólido, consciente e de longo prazo começou a ser posto em prática na Baixada. Pagamento de antigas dívidas, folha salarial enxuta e de acordo com a realidade do clube, investimento em um consistente trabalho de marketing, a contratação de um técnico jovem, inteligente e estudioso em vez dos caros figurões do futebol gaúcho, foram algumas das ações que fizeram o clube mudar drasticamente e que fizeram começar a ser retomada a confiança da torcida, dos patrocinadores, da cidade e de todos os envolvidos com o clube. O Inter-SM começou a viver tempo menos líquidos.

O resultado de tudo isso, é claro, começou a se refletir dentro de campo. E antes mesmo do esperado. Depois da boa campanha em 2017, o clube manteve o treinador Vinícius Munhoz e boa parte do elenco que esteve a um jogo de garantir o retorno à série A do Campeonato Gaúcho.

Mesmo com a derrota de 3×1 contra o Aimoré em São Leopoldo, na última quarta, o Inter-SM fez uma grande campanha na Divisão de Acesso até aqui, garantindo a classificação matemática para a fase eliminatória com uma rodada de antecedência. O Alvirrubro igualou a campanha da fase de grupos do ano passado, quando fez os mesmo 23 pontos, chegando pela segunda vez consecutiva entre os melhores da Divisão de Acesso.

Pode ser que o acesso não venha esse ano. O futebol é imprevisível. Mas fica a certeza de que a base do trabalho está sendo construída de maneira firme. O caminho até o objetivo principal ainda é duro, mas já temos a certeza de ter de volta o sorriso da torcida, o bom futebol, a confiança, a alegria dos atletas em defender o Internacional com a convicção de que estão fazendo parte de um projeto bem planejado.

O que todos esperamos é que em tempos líquidos da pós-modernidade, o Inter-SM então se mantenha apenas moderno. Que resista ao espírito do tempo efêmero e fugaz. Que o Inter-SM continue assim, em tempo líquidos, que o Alvirrubro se mantenha sólido.

João Inácio Pereira é colaborador do EsporteSUL desde 2017, tem 26 anos e nasceu em Santa Maria.

Notícias Relacionadas