Especial da Copa: Terminaram as oitavas, e agora?

A Copa do Mundo começou e eu esqueci da vida, inclusive de postar a coluna semanal. Durante um mês tudo gira em torno da Copa da Rússia aqui em casa. Mas então, o que os números nos dizem dessa vez? Será que eles estão sendo favoráveis às equipes previamente favoritas? Será que conseguimos explicar os vencedores dos confrontos apenas olhando os números de cada equipe?

Muitas equipes favoritas já deram adeus à competição. A Argentina foi um misto de desorganização, com falta de vontade e brigas internas. A seleção Espanhola se mostrou apática, mais preocupada com fatores externos e alheios ao jogo (seu treinador foi demitido 48 horas antes da estreia). Portugal, mesmo não sendo a favorita, possui uma equipe jovem e com grande potencial futuro, contudo, não soube jogar contra a forte e renovada equipe Uruguaia. A campeã Alemanha, mesmo apresentando altos índices de desempenho, não soube finalizar com eficiência e tornar sua superioridade em vitória. Foi, até o momento, a maior decepção para os amantes do esporte bretão.

Assim, observar apenas os números, ou seja, fazer uma análise de scout sem que haja uma análise desempenho das equipes (abordei a diferença entre elas aqui) não é o mais indicado. Por que? Vamos analisar algumas variáveis para explicar o motivo.

Posse de bola

Analisando todos os jogos da Copa até o momento (após término das oitavas de final), as equipes vencedoras apresentam 53% de posse de bola. Apesar disso, quando analisado separadamente, a posse superior não indica com total e completa certeza quem irá vencer a partida. Vários jogos foram ganhos por equipes com menor posse, inclusive o jogo do Brasil contra o México (48% contra 52%, respectivamente). Outros exemplos são o Marrocos contra o Irã (67% contra 33%), Portugal e Uruguai (68% contra 32%) e, pasmem, Alemanha contra a Coréia do Sul (74% contra 26%). Mesmo com maiores posses de bola, todas perderam suas partidas.

Passes certos

Outra variável muito debatida no último ano futebolístico é a quantidade de passes trocados por cada equipe e o aproveitamento desses passes. Mas então, será que ter um maior aproveitamento nos passes, ou mesmo, trocar mais passes durante os jogos explica o resultado final? A resposta também é não. Vários jogos durante a Copa do Mundo vem mostrando que trocar mais passes não é essencial para vencer um jogo. Quem viu o jogo da Espanha (uma das favoritas ao título mundial) contra a Rússia sabe disso.

A seleção comandada por Fernando Hierro teve incríveis 1008 passes certos durante o jogo das oitavas (com também incríveis 90% de aproveitamento) e, mesmo assim, acabou caindo fora da competição. A seleção espanhola é responsável, também, pelos três jogos com maior quantidade de passes certos trocados. Apesar disso, a fúria espanhola venceu apenas um jogo, contra o considerado fraco Irã (e por apenas 1 a 0).

Finalizações corretas

Essa variável é, talvez, a mais utilizada para determinar se uma equipe jogou bem ou não. Entretanto, será que existe uma relação entre as equipes com maiores finalizações e o resultado final nos jogos da Copa? De forma geral, os vencedores apresentaram uma média de 4,79 chutes certos durante os jogos. Isso representa uma média de 1,96 gols marcados. As equipes perdedoras finalizaram corretamente com menor frequência ao gol adversário (3,07 em média), o que representa 0,66 gols por jogo. A relação entre essas duas variáveis mostra que há diferença entre a quantidade de finalizações corretas entre vencedores e perdedores, contudo, não era de se esperar que a diferença fosse maior.

O que podemos esperar daqui para frente?

Conforme dito no início do texto, as variáveis quando olhadas separadamente não significam muita coisa (inclusive podem camuflar diversos problemas das equipes). Quando pensamos nos números do jogo e como iremos analisar as variáveis, precisamos entender qual é a relação entre elas, como elas podem se combinar para tentar prever o que irá acontecer durante os confrontos.

Passados 56 jogos até agora, estamos chegando ao final de uma Copa do Mundo sensacional (na minha opinião, muito melhor do que a de 2014). O telespectador não tem do que se queixar até o momento (apenas um jogo terminou em 0x0 – França e Dinamarca). Mesmo que várias seleções favoritas já tenham caído fora da competição, podemos esperar novos jogos espetaculares (se não em quantidade de gols, em emoção). O jogo entre Bélgica e Japão foi um claro exemplo disso. O segundo tempo foi eletrizante: a equipe Belga virou a partida no último lance!

Termino esse texto falando sobre o Brasil. A equipe canarinho mostrou uma boa melhora desde seu primeiro jogo. Apesar de um início complicado, com grande pressão mexicana, a seleção de Tite conseguiu se impor, melhorando sua performance coletiva na segunda etapa de jogo. Um aspecto bastante interessante é que a seleção não toma gols. Mérito apenas do goleiro Alisson? Acredito que não. O bom esquema adotado pela equipe, com marcação levemente avançada e uma boa cobertura defensiva (seja na transição ou na organização defensiva), dificulta as finalizações adversárias. Até o momento, Alisson é praticamente um espectador privilegiado dentro de campo (o goleiro defendeu apenas cinco chutes durante toda a competição).

Mesmo o jogo sendo coletivo, gostaria de destacar um jogador em especial no jogo das oitavas: William. O jogador do Chelsea finalmente resolveu aparecer durante os jogos. Suas arrancadas e trocas de passes no último quarto de campo foram fundamentais para o Brasil vencer a competitiva equipe do México. Na minha opinião ele deveria ser o “man of the match” da FIFA.

Os números não servem para definir quem será o vencedor ou o perdedor de uma partida. Porém, eles servem para embasar a análise de onde as equipes estão falhando, podendo assim auxiliar no treinamento e correção dos pontos fracos, afinal, como dito em textos anteriores, o imponderável é o 12º jogador.

Nos vemos nas próximas fases!

Fábio Saraiva Flôres é professor de Educação Física formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É professor do Centro de Educação Física e Desportos da UFSM e aluno de doutorado na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa. Atua profissionalmente como pesquisador e observador na área do Futebol desde 2010. É observador nível 1 da Professional Football Scouts Association (PFSA) da Federação Inglesa de Futebol.

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