Nos EUA, ex-meia da dupla Rio-Nal se consolida como treinador de futebol e personal em academia do UFC

Optar por ser um jogador de futebol profissional, é saber que, entre tantos desafios, o atleta precisará estar em constante adaptação numa vida muitas vezes marcada por mudanças repentinas, como um verdadeiro andarilho em busca de seus sonhos no mundo da bola. E é essa capacidade de adaptação que fez do agora ex-meia Rafinha Carpes, de 34 anos, decidir trocar o futebol gaúcho e Santa Maria por uma desafiadora nova etapa a mais de 8 mil km do coração do estado, como treinador de futebol infantil e personal trainer na cidade conhecida como capital do mundo, Nova Iorque.

De férias na cidade onde foi criado e profissionalizou-se como jogador em 2003, Rafinha conversou com o EsporteSUL e revelou detalhes da nova vida na América do Norte, onde se divide entre trabalhos ligados à sua profissão de educador físico em academias, entre elas em uma unidade da franquia de lutas UFC, e à atividades relacionadas ao futebol.

Cria do Inter-SM, clube onde assinou o seu primeiro contrato profissional em 2003 e mais tarde retornou para a disputa da Divisão de Acesso em 2016, além de vestir a camisa do Riograndense em 2006, o meia ambi-destro que se destacou na base alvirrubra por sua força e explosão e que se aventurou pela primeira vez em solo norte-americano em 2009 para jogar pelo NY Irish Rovers, de Nova Iorque (EUA), na disputa da Divisão 1 da Long Islands Soccer League, liga semi-profissional de futebol, mudou-se definitivamente há pouco mais de dois anos para a cidade que é banhada pelo rio Hudson, às margens do Atlântico Norte.

Rafinha em ação em amistoso contra o Panambi na pré-temporada de 2016. Foto: Diogo Viedo/EsporteSUL
Rafinha em ação em amistoso contra o Panambi na pré-temporada de 2016. Foto: Diogo Viedo/EsporteSUL

Admitindo certa desilusão com a realidade do futebol profissional no Brasil, Rafinha, que se recupera de uma grave lesão em Santa Maria, relembra o surgimento da oportunidade que deu novo rumo à sua carreira e à sua vida:

– Ser nômade e passar períodos longe da família é um preço a ser pago e eu o paguei vivendo em diversas cidades do Rio Grande do Sul até perceber que, infelizmente, não basta ser um bom jogador, tem muita coisa nos bastidores (ter um influente empresário, um clube que valorize as “pratas” da casa e muitas vezes um treinador corajoso em dar a oportunidade para um jovem). Após este choque de realidade, comecei a conciliar duas paixões: o futebol e a faculdade de Educação Física. Treinava pela manhã e tarde e estudava à noite e com o dinheiro do futebol, paguei minha faculdade. A oportunidade de jogar nos EUA veio durante um torneio de futebol society em São Paulo onde joguei para uma rede multinacional hoteleira e um americano me levou para jogar algumas ligas em Nova Iorque em 2009 e durou cinco meses. Eu na verdade desde criança tinha o sonho de conhecer Nova Iorque, mas acabou ficando para trás no decorrer da vida. – relata o agora professor, que se diz fã de filmes que passam em NYC, como King Kong e super heróis da Marvel.

Em uma das unidades da academia UFC em Nova Iorque, Rafinha atua como treinador. Foto: Arquivo pessoal

Com uma rotina intensa e já decidido a não regressar mais ao país, uma conversa no inicio de 2016 com o então presidente do Inter-SM Heriberto Marquetto, no entanto, fez o coração do atleta nascido em Santo Ângelo e criado em Santa Maria balançar, o que culminou com a volta à Baixada para vestir a camisa alvirrubra pela última vez.

– Tive a oportunidade de retornar aos EUA em 2014/2015 para jogar algumas ligas como Cosmopolitan Legue, Long Island League e Heineken Cup. Logo, comecei a aprender o idioma e também a trabalhar com academias de futebol. Foi aí que decidi me tornar um “americano”. Ao regressar em 2016 para visitar e me despedir da família, conversamos eu e o Marquetto e aceitamos o desafio de manter o Inter-SM, meu time de coração, na segunda divisão, apesar de todas as dificuldades que você e o verdadeiro torcedor muito bem sabe, e conseguimos! – destaca.

Rafinha vestiu a camisa 10 do Inter-SM no Rio-Nal disputado nos Eucaliptos, válido pela primeira fase da Divisão de Acesso de 2016, vencido por 2 a 0 pelo Alvirrubro. Foto: Diogo Viedo/EsportesUL

Mas, a disputa da Divisão de Acesso de 2016 era mesmo uma despedida do Brasil para o aventureiro que desembarcou na Big Apple pela primeira vez sem falar muitas palavras em inglês e já se imaginava num caminho sem volta.

– Além de estar jogando as ligas citadas, eu já estava trabalhando para uma academia de futebol em Nova Iorque, já era o treinador principal de três equipes na época, hoje são oito, e também como personal soccer trainer, hoje com mais de 50 jogadores que atendo privado. – revela.

Animado com o crescimento do esporte nos Estados Unidos, o educador físico formado pela Faculdade Metodista de Santa Maria (FAMES), não hesita em afirmar que os norte-americanos têm tudo para se tornarem uma grande potência também no “soccer”, como é chamado o futebol por lá.

– Em termos de estrutura comparado ao Brasil, posso afirmar que o EUA já é o país do futebol. Qualidade somos nós e isto nunca vai mudar. – aponta o treinador licenciado que atualmente trabalha em três diferentes academias de futebol, todas em Nova Iorque, além de atuar como árbitro licenciado e preparador físico.

Rafinha comandando treino de uma de suas equipes infantis, o Athletic. Foto: Arquivo pessoal

A rotina agitada que se divide em três turnos de trabalhos diários, entre atividades de coach e preparador físico numa das academias franqueadas do UFC, treinos privados de futebol e treinos das suas equipes, que somam-se aos jogos por ligas locais aos finais de semana, já não é problema para o ex-jogador que vem ao sul todo final de ano para suprir sua única carência num país cheio de oportunidades.

– Gostaria de ter minha família e alguns amigos lá comigo, mas ainda não é possível. E este é o preço que pago por ter largado tudo aqui e ter ido embora sozinho. E sim, é um preço bem alto estar longe de quem realmente nos ama. – confessa Rafael, que é conhecido por “Brazil” na ilha de Long Island (NY).