Faixa preta Mel Cueto estende temporada de treinos, campeonatos e experiências nos Estados Unidos

Pandemia alterou os planos da lutadora da RMNU, que hoje celebra estar em solo americano para exercer o seu esporte

(Foto: Arquivo Pessoal)

No início do mês de março a faixa preta Mel Cueto deixou a santa-mariense RMNU para passar um período de cinco meses nos Estados Unidos para aprimorar o seu jiu-jitsu e encarar uma sequência de quatro competições nos tatames norte-americanos: o  Pan-Americano, o San Diego Open, o Campeonato Mundial e o American National.

Porém assim que desembarcou em San Diego, na Califórnia, Mel sofreu um duro golpe de um inimigo que já assolava todo o planeta: a pandemia do coronavírus. Logo um dia após a sua chegada todos os campeonatos previstos e treinamentos foram cancelados junto a decisão de fechar fronteiras e aeroportos do país.

Impedida de retornar ao Brasil, sem treinos e muito menos competições pela frente, a lutadora ficou o maior período de tempo de toda sua carreira sem pode treinar. Mas, após este afastamento forçado, Mel hoje respira aliviada após reajustar todos seus planos e já poder exercer o seu esporte na Terra do Tio Sam.

Desde o final de julho a faixa preta da RMNU voltou a treinar normalmente na Gracie San Diego, do mestre faixa preta Régis Lebre, e após seis meses já se diz habituada a sua nova vida americana. Se em Santa Maria os treinos dominavam a maior parte do seu tempo, em San Diego o cronograma diário é dividido com as aulas de inglês e tele-entregas, maneira na qual tira o seu sustento para custear está temporada na costa oeste dos Estados Unidos.

E em meio a esta intensa rotina o EsporteSUL bateu um papo com a faixa preta que segue sendo o principal nome feminino revelado pela arte suave de Santa Maria e há muito tempo é uma das grandes referências do Rio Grande do Sul.

Nesta conversa Mel Cueto falou sobre todo o delicado momento que passou e gerou dezenas de incertezas quanto ao futuro, mas também vibrou com os novos rumos tomados em sua carreira, por permanecer nos Estados Unidos e assim poder treinar, o que aqui estaria impossibilitada. Vale destacar que inclusive Mel já tem campeonatos agendados, o Abu Dhabi Grand Slam Tour no dia 27 de setembro e o Pan-Americano no dia 11 de outubro, ambos na Flórida, estado americano na qual Mel passará a partir dos próximos dias por um período de treinos até as duas competições.

A lutadora que entre os maiores títulos contabiliza os ouros no Campeonato Brasileiro, Campeonato Sul-Brasileiro, Campeonato Sul-Americano,  Grand Slam do Rio e Campeonato Mundial, também falou sobre o seu futuro, que ao menos até o início de 2021 deve seguir sendo escrito no país norte-americano, e ainda revelou sonho que em breve deve ser realizado: o de abrir sua própria academia e compartilhar toda a experiência de mais dez  anos de jiu-jitsu e bagagem de quem já subiu no pódio de algumas das principais competições do mundo.

Veja os principais trechos da entrevista com a faixa preta Mel Cueto:

PRIMEIRO O SUSTO...

"Foi bem frustrante com a pandemia. Foi a primeira vez que consegui me programar para lutar o Pan Americano, há muito tempo queria lutar. Eu sempre conseguia me programar sempre só para o Mundial, até por questões financeiras mesmo. Esse era o primeiro ano e eu estava bem empolgada, bem motivada, não só com o campeonato, mas também a preparação, de poder me preparar aqui para o Pan e Mundial, de ter esta experiência fora.

Foi bem chato toda situação, como para todo mundo. O fato de ter que ficar em casa, de não poder fazer atividades, de se sentir no ócio, foi bem pesado. Tentamos voltar três vezes e os voos foram cancelados. Andei bem desmotivada. Me senti meio perdida, parece que tinha esquecido o proposito do que tinha vindo fazer aqui. Me senti meio sem perspectiva. Sem campeonatos, previsão de volta, a incerteza do que vai ser o amanhã do que vai ser daqui para frente. Eu fico muito para baixo quando fico sem treinar e agora com a pandemia foi a maior vez que fiquei sem treinar."

...DEPOIS O ALÍVIO!

"Quem quer viver do jiu-jitsu, quem é desse meio, precisa respirar outros ares, ver outras metodologias, outras escolas, vivenciar o máximo possível. e não só no Brasil. Por mais que o jiu-jitsu seja um esporte brasileiro ele está no mundo todo. E aqui na Califórnia é onde mais está crescendo. Então graças a Deus que as coisas estão voltando ao normal e estou conseguindo vivenciar isto tudo. Estou feliz de saber que vai ter o campeonato, muito feliz com a oportunidade de estar me preparando bem. Aqui estou tendo que me manter bem de cabeça, de alimentação, dormir bem, me cuidar mais. Sempre fiz muito pouco isso, principalmente com questão de alimentação, suplementação. Sempre treinei muito mas deixei a desejar em outras áreas. Aqui como o treino é muito forte eu me vejo na necessidade de fazer tudo para estar bem no outro dia e conseguir treinar bem de novo e assim por diante. É outro ritmo e está me fazendo aprender muito. Vai ser uma experiência que vai me trazer uma bagagem muito grande."

Mel Cueto após mais um treino na Gracie San Diego. (Foto: Arquivo Pessoal)

ROTINA NORTE-AMERICANA

"Os dias estão bem corridos. Tenho acordado geralmente perto das 6 horas da manhã e vou dormir pela meia noite, com dia bem preenchido, dificilmente sobra algumas horas para dar uma descansada. Os treinos sempre acontecem ao meio dia e as 18h, isso quanDo não tem algum outro treino de preparação física. Tenho me virado com delivery, por aplicativo, então acaba dando uma liberdade maior de horário, consigo fazer o meu horário. Tenho que correr umas cinco, seis horas por dia para tirar o dinheiro para me manter.

Logo que cheguei aqui tinha o dinheiro para o aluguel do primeiro e segundo mês e já tinha ideia de que tinha que arrumar alguma coisa para fazer. Infelizmente não consigo dar aula ainda por causa do meu inglês, mas estou fazendo aula e espero em um futuro próximo conseguir. Para quem sabe até parar um pouco com os deliveries e conciliar, porque assim é mais tempo que consigo passar na academia. Mas esta no geral é minha rotina.

No Brasil eu morava com meus pais, não tinha que me preocupar com comida, com aluguel, pagar luz e essas contas. E aqui tenho mais isto. Além de me preocupar com a minha preparação, com o treino, com o jiu, tenho que preocupar como vou pagar as contas. Ainda que aqui as coisas acabam rendendo mais. Está sendo uma grande experiência, mas bem cansativa (risos)."

RETORNO AO BRASIL

"Esse ano eu não volto. Tive até que refazer a extensão do meu visto para poder ficar mais um tempo. Estou com planos para mudar para visto de atleta para que consiga a ficar mais tempo aqui. Então quero ficar aqui esse ano e 2021 ainda não sei como vai ser. Vamos ver como as coisas vão acontecendo. Quero absorver o máximo, aprender o máximo que puder, aproveitar esta oportunidade que estou tendo de treinar com uma equipe muito boa, um professor muito bom, todos os dias aprendo alguma coisa. A esposa dele também tenho aprendido muito, já conhecia ela um tempo atrás e aqui a reencontrei. Tudo que aparecer aqui e tiver a oportunidade vou lutar. Mas independente de lutar os campeonato quero aprender o máximo que puder. Não só no jiu-jitsu, mas em questão de vida, percepção de muitas cosias."

FAIXA PRETA

"Tenho a consciência que tenho que aprender muito ainda na faixa preta. Sempre escutei que quando chega na faixa preta é onde começa o jogo e realmente é. Tenho aprendido muito e tenho muito a aprender. Estou disposta a isto, estou buscando isto. Sempre temos que querer mais e fazer por onde."

SONHO DA PRÓPRIA ACADEMIA

"Tenho planos de abrir uma academia. Antes de vir para cá já tinha esses planos, até já tinha conversado com uma pessoa sobre isto. É uma coisa que vai acontecer, só ainda não sei quando. Mas vai sim acontecer. Tenho consciência que minha carreira de atleta não tem muito tempo mais. Chega uma certa idade que não queremos essa rotina cansativa. Por mais que seja prazerosa é muito cansativa. Daqui a uns anos quero repassar o que aprendi. São mais de dez anos que tenho essa decisão do jiu e desde a faixa azul luto Mundial, eventos fora do Brasil, campeonatos de grande porte, de alto nível. Além disso quando vou lutar sempre procuro conhecer outra academias. Tenho uma bagagem muito grande e que não seria justo eu não repassar tudo isto. Quero ter meus alunos, poder acompanhar eles.

Passei por mais de uma escola e puder sempre aprender coisas boas, sou muito grata por essas pessoas com quem tive a oportunidade de conviver e aprender. Mas muitas coisas que senti falta ou eu não concordo são coisas que não quero fazer futuramente com meus alunos. Quero tentar ser o que eu não tive, passar algumas coisas que eu senti falta para os meus alunos. Vai ser outra etapa da minha vida, Quando acontecer isso minha carreira de atleta estará de lado, quero me dedicar a academia, aos meus alunos e a este novo projeto. Hoje meus planos seguem direcionado a vida de atleta, quero conquistar muitos títulos ainda, e em um futuro próximo quero repassar isto e formar novos campeões.

Como eu disse, eu não sei quando isto vai acontecer, mas eu estou ansiosa para esta nova fase também. Quero ter a capacidade e dar suporte fora do país e da cidade para os meus alunos. É uma coisa que eu sempre senti muita falta, deste suporte. Sempre tive que buscar isso e faz uma grande diferença para quem quer competir."

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